A Pandemia do Coronavírus que iniciou em novembro de 2019 na China e se disseminou pelo mundo nos meses seguintes, possui um custo social e econômico intenso que ameaça vários setores da economia, essencialmente, os pequenos e médios produtores culturais que há anos nadam contra a corrente e agora, perdem o fôlego diante de um tsunami que devasta conquistas e planos, gerando angústia e desesperança.

O título deste artigo usa uma expressão que pode parecer “controversa” visto o uso corrente no cotidiano brasileiro que sugere algo “que nos surpreende, e nos deixa sem ar”, geralmente por um motivo positivo, uma boa notícia. A proposição aqui, porém, é literal mas também metafórica, ao criar um paralelo que nos instiga a (re)pensar a manutenção,  sobrevivênica e (re)construção das atividades culturais no mundo e mais propriamente no Brasil, devido à crise mundial da pandemia do Covid-19.

 

No jogo político, a cultura é peteca

Em 15 de março de 1985 surgia o MINC – Ministério da Cultura, concentrando as atribuições antes pertencentes ao MEC – Ministério da Educação e Cultura (1953 a 1985). Considerando a extensão do país (5º maior do planeta) e o volume populacional (6º país na lista das maiores demografias do mundo, com mais de 210 milhões de habitantes), a comunidade artística e de cultura, conquistava um espaço próprio para acompanhar a definição de políticas voltadas, agora, especificamente para atender esta classe, majoritariamente às margens de outros interesses e ações colocadas como prioridades.

Mas dentro do jogo político, com entradas e saídas de governos, cada representante decide, com a imposição e alteração de decretos e leis, pela paralização ou extinção de políticas em andamento. O que um constroi o outro destroi. Isso deixa claro o desinteresse dos governos pela coisa pública, onde assistimos um show de imposição de egos e do poder pelo poder, afetando diretamente a sociedade, que se desordena e regressa, no sentido de não ser orientada pela e para a educação ao estampar o rótulo de “país da corrupção”.

E assim, em 2019, o Ministério da Cultura é extinto e transferido para o Ministério da Cidadania absorvendo também o Ministério do Esporte e do Desenvolvimento Social. Em novembro deste mesmo ano, a Secretaria Especial de Cultura migra, ainda, para o Ministério do Turismo.

Contornar obstáculos e desenh(AR) soluções

É a partir desta malha desfiada, que Rodrigo Estrela, representando o Sebrae Minas entrevistou, via live, Leandro Valiati, professor e pesquisador em Indústria Cultural e Economia Criativa, para conhecer, neste âmbito, as perspectivas para a sustentação da economia cultural pós-coronavírus.

Abaixo, compartilho as exposições de Valiati, com trechos desta entrevista ordenados de forma a facilitar a compreensão, onde também faço alguns apontamentos e reflexões.

Estrela, expõe a temática contextualizando a nova realidade das relações sociais e pergunta a Valiati sobre os impactos do coronavírus nos pequenos negócios:

É sabido que atividades artísticas como shows, aulas e espetáculos envolvem contato com o público e aglomerações, ações essas que estão suspensas para respeitar o distanciamento social, uma importante e essencial forma de combate à disseminação do coronavírus.

O mercado de trabalho e empregadores na área cultural no Brasil é de cerca de 7 milhões de pessoas que estão numa situação de fragilidade.

Os EUA contabilizam que 70% dos negócios culturais do país estão ameaçados, ou seja, o impacto atingiu uma proporção de inviabilização de retomada. Este quadro acontece em uma das economias criativas com indústrias culturais muito fortes que são hoje as grandes potências mundias.

É muito importante o Brasil desenvolver políticas públicas que olhem para este setor da economia. O risco para este setor não é só de emprego e renda – que já são características importantes – mas um risco sobre o valor cultural brasileiro. Se houver uma falência generalizada do setor cultural, a consequencia será um espaço em branco para os brasileiros na retomada, espaço esse que poderá ser ocupado por bens e serviços culturais de outros países.

A cultura e a identidade brasileira estão em jogo. Certamente precisamos olhar pra isso.

Nessa perspectiva, fica difícil ter um olhar otimista. O setor cultural, assim como outros segmentos, foram submetidos a uma transformação digital forçada. A fim de evitar um “esvaziamento da cultura”, quais são as perspectivas diante deste cenário?

Valiati enumera algumas ações importantes para a sustentabilidade e conservação do setor cultural nacional e destaca a riqueza plural e diversa do país.

Estamos vivendo uma agudização de distintas tendências no cenário mundial:

– digitalização dos processos;

– revisão dos formatos de trabalho;

– nova organização em relação às distintas áreas de sistemas produtivos.

Nos últimos 10 anos, assistimos o sistema de subsídio à cultura brasileiro cair consistemente. O governo Bolsonaro aprofunda uma tendência que já era percebida nos últimos anos, uma vez que se posiciona ideologicamente contra a cultura.

A pandemia é, portanto, um momento grave mas que agudizou tendências que íamos enfrentar nos próximos anos.

Nossa sociedade precisa reconstruir as pontes e os caminhos para o progresso e o desenvolvimento econômico bem como refletir o que o país entende ser importante para esse desenvolvimento econômico que se inicia a partir de subsídios, incentivos e projetos.

Valiati reforça este argumento, dando exemplos de práticas DE alavancagem econômica adotadas em outros países:

As indústrias criativas podem ter um papel protagonista. Na prática, vários países estão atuando nesse sentido.

A Inglaterra, por exemplo, manteve todo o financiamento público das atividades de patrimônio, cultura e indústrias criativas pré-crise do coronavírus. As atividades continuaram a receber os recursos com a condição de não demitirem ninguém da cadeia produtiva.

As crises desaceleram o incentivo público focado em regulação e políticas culturais o que reforça ainda mais a necessidade de mobilização das comunidades de cultura no sentido de avançarem com ações estratégicas para proteção da cultura nacional. Valiati considera fundamental:

  • estimular debates estratégicos, a saber a posição da cultura e da arte no projeto de desenvolvimento econômico do país;
  • resgatar o desenvolvimento social fortalecendo os editais ligados a atividades culturais específicas como a cultura popular e atividades inclusivas através da dança, música, teatro, audiovisual, arte-educação;
  • criar uma política de reforço dos canais de difusão de produtos culturais brasileiros, usando streaming e outras tecnologias digitais no sentido de preservar o mercado interno e atingir o mercado externo.

Percebemos na opinião de Valiati, a necessidade de um reposicionamento da estratégia de desenvolvimento econômico uma vez que “a cultura e a ciência são drivers fundamentais do desenvolvimento.” Em casa, a cultura oferece meios de expressão que auxiliam as pessoas a “saírem de suas realidades” e a ciência vai conduzir a solução que o mundo precisa, com pesquisa e desenvolvimento de vacinas.

Valiati lembra que EUA e França fomentam o setor cultural criando valor social e mais estabilidade.

show-streaming-youtube-coronavirus Apesar de não ser uma iniciativa pública, um exemplo que pode ilustrar esta percepção de Valiati, é o evento Graduate Together: America Honors the High School Class of 2020, que irá ao ar, simultaneamente, dia 16 de maio, em canais televisivos dos EUA (ABC, CBS, Fox e NBC) em parceria com mais de 20 serviços de broadcast e streaming, com atrações de peso no qual participarão personalidades políticas e artistas, para realizar um evento global de celebração para formandos 2020 no mundo. A imagem ao lado, mostra a chamada para um evento semelhante, o Dear Class of 2020, promovido pelo youtube. Ambos eventos, unem o valor de uma tradição cultural, tecnologia, as grandes mídias, líderes comunitários e pessoas de referência da indústria criativa a somarem um valor gigantesco para geração de impacto no setor cultural e econômico norte-americano.

Uma oportunidade para o Brasil, nesse sentido, seria potencializar as indústrias do audiovisual e da música popular brasileira fortalecendo iniciativas já existentes – como o streaming e na inovação para o consumo de arte.

Uma manifestação já percebida, e que teve adesão também de outros segmentos profissionais, são as lives: artistas utilizam o recurso presente em redes sociais que, muito provavelmente, devem já estudar uma forma de monetizar a ferramenta, com sistemas de remuneração a partir das lives.

Há de se pensar que nem todas as empresas de cultura têm recursos e equipes para agir estrategicamente para garantir a relação de consumo entre os públicos. A convergência para o ambiente digital é percebida como uma tendência e às vezes, até mesmo o único caminho no contexto atual, mas exige um planejamento, investimento, educação do público para uma nova forma de consumo. A transformação digital pode ser um caminho de sobrevivência para vários atores culturais mas ao mesmo tempo, a parte mais vulnerável da sociedade é excluída.

Nessa linha de pensamento, Valiati alerta para a realidade social do Brasil:

É preocupante, contudo, o caso brasileiro que possui um déficit tecnológico. As classes médias e altas tem pleno acesso às tecnologias de comunicação e informação e podem dialogar com esse mercado. As classes mais baixas, como poderão ter acesso? Cultura é um direito!

O Brasil tem um gap tecnológico muito expressivo.

É importante um programa de democratização de acesso à cultura por meios digitais no Brasil, no que tangem à produção e ao consumo. Deveria ser uma política estruturante vindo do Ministério de Ciência e Tecnologia. Pois aí se é capaz de produzir a sobrevivência econômica bem como aumentar a difusão do valor cultural e tê-lo como um real ativo econômico internacional para o momento pós-crise, dada a riqueza das manifestações culturais do Brasil.

Estrela pergunta também sobre as fontes de informação e de discussão coletiva para que empresários nas áreas das artes e da cultura em geral, possam participar e debater seus desafios em busca de soluções.

Eventualmente os poderes públicos locais podem criar fóruns para o setor cultural se conectar e encontrar soluções. Prefeituras locais, secretarias de cultura e sebraes locais podem unir forças para oferecer esses canais de encontro aos produtores e até mesmo aos consumidores de cultura para fomentar debates como forma de participarem ativamente no processo e esforço para manutenção das atividades artísticas e culturais.

Valiati afirma a importância de propôr uma reflexão que reconheça a emergência da valorização e proteção da cultura nacional e de participar de fóruns de qualidade por ser esta a única via que starta soluções inteligentes e estratégicas para atender problemas específicos de cada município e Estado. Alguns aspectos, ressaltados por Valiti,  para avaliação da qualidade de um fórum e pelos quais deve-se estar atento, resumem-se, consistentemente, ao cuidado em não disseminar fake news:

1) a informação e o conhecimento devem andar juntos;

2) evitar o discurso fácil e qualquer debate sem base científica e sem compromisso com a verdade.

Tais diálogos são capazes de produzir insigths e propostas de ação organizadas e relevantes para os sujeitos de cultura e consequentemente para a sociedade e a economia.

A preocupação, mais uma vez, é com a infraestrutura em produzir encontros para que esses mercados repensem como podem se reorganizar.

É um momento de repensar escolhas sociais. E isso passa por uma informação de qualidade.

Valiati conclui, relembrando o histórico do setor cultural que já vivia uma crise de subfinanciamento, sendo ainda alvo de ataques por outros setores da sociedade por uma disputa ideológica que se soma a esta grande crise global.

Este breve panorama da realidade do setor cultural no Brasil serve de reflexão e provocação para traçar novos rumos em “busca de oxigênio” na esperança de um dia também nadar a favor da corrente em mares mais tranquilos e navegáveis.

Colagem por Dany Dhen

Bônus e insights

Pessoas e empresários de diferentes segmentos, sensibilizados com o impacto provocado pelo coronavírus mas também percebendo uma oportunidade para dar mais visibilidade e humanização às suas marcas, realizam debates, oferecem cursos, webinars, gratuitamente.

Se você não tinha o costume de também consumir conteúdo de outras áreas, agora é a hora de criar este hábito ou mesmo, de pensar um pouco diferente, arriscar algo novo, mudar a rota, refinar a sua ideia e melhorar projetos em andamento ou que até o momento foram postergados.

São inúmeros os eventos online. Compartilho alguns com vocês e espero muito que possam orientar e dar algum norte para continuar a sua jornada.

08/05: Arte como respiro, múltiplos editais de emergência do Itau Cultural

11/05: Não pare, adapte-se

#JuntosnoDigital: plataforma com conteúdos exclusivos para empreendedores

Super desafio Covid-19: empresas de qualquer porte, órgãos governamentais e sociedade civil podem apresentar suas demandas para que startups e comunidade científica possam apresentar e oferecer soluções para enfrentarmos a crise do Coronavírus

Cursos online Sebrae Minas

Uma seleção de serviços gratuitos aqui.

Referências

Não pare, adapte-se

Leandro Valiati

Sebrae: Impactos do coronavírus: Impactos na Economia Criativa

A Economia da Cultura (Medium)

World Population Clocks

Ministério da Cultura

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Artigo originalmente publicado no Observatório da Comunicação Institucional.